quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Brou e Véi



Na sala de uma casa:

- Pô Brou, a gente devia dá uns rolê aí pelas bandas!
- Certeza, Véi!
- Que cê acha da gente mandar vê na rua de trás?
- Certeeeeza, Véi!
- Pô, então vamo lá, Brou!
- Pô, certeza, Véi!
- Pega a porra do 3.8!
- Certeza, Véi!
- E vamo mete chumbo grosso naquilo tudo.
- Ééé, certeeeeza, Véi!!
- Peraê que vô lá pegar aquele meu casaco pretão, tá ligado? Dá mais moral, Brou!
- Ôô, certeza, Véi!
- Porra, meu casaco não tá aqui, caralho! Merda, vô tê que ir assim mesmo, mas que...

Uma mulher aparece na sala:

- Mas que o quê, hein, seu Dirceu?
- Pô mãe! Não me chama desse nome. Eu sou o Véi!
- Que Véi que nada! Isso lá é nome de gente? E você pare de ficar usando palavrões o tempo todo. Não foi isso que eu te ensinei.
- Ô Dona Clotilde, eu tenho que sair. - Reclama o filho.
- Ôôô saca só, Véi! Tua mãe tem o nome da bruxa do 71!! Que iraaaado!
- Cala a boca, Brou!!!
- Como é que é? Bruxa? - A mãe está indignada.
- Ah mãe, cê liga pro que o Brou fala, é?
- Pô, Véi! Mas é, cê não tá ligado no Chaves?
- Chaves?? - A mãe põe as mãos na cintura
- Mas tu é um mané trouxa! Caralho!
- Sô não, Véi! Cê que não lembra!
- Ah, então é por isso que você me chama de Dona Clotilde, é? Eu sempre quis saber a origem desse "apelido".
- Ah, nada a vê! Ó, tô vazando.
- "Tá vazando" pro seu quarto! AGORA!
- Pô, mãe! Eu tenho que ir!
- Olha aqui, enquanto você não aprender a se comportar melhor, você não vai mais vazar pra lugar algum. Tá entendendo?
- Por quê, pô?
- Porque eu te dei liberdade demais, e olha no que deu!
- Deu que eu sou o rei da rua de trás, sacou?
- Não é mais! - Disse a mãe irritada
- Sô, sim! Ninguém atira melhor que eu!
- Atira o quê?
- Ôô, certeza, Véi! O Melhor! Mata todas!
- Aii meu Deus! Vocês conseguiram armas???
- Ôô, certeza Dona Clotilde. Senão não tem como mandar vê na rua de trás!
- Aiii, tarde demais! Meu filho é um marginal-assaltante-ladrão-assassino!
- Ô mãe! Que pira é essa, meu? Pirô geral, é?
- Me dá a arma, já! Eu tô mandando!
- Por que você qué?
- Dirceu, AGORA!!!

- Porra, tô falando que cê pirô!
- Se você não me der essa droga de arma agora, eu vou ligar pro seu pai.
- Tá, tá. Que merda!
- Olha o palavrão, menino! - A mãe estava ficando cada vez mais histérica.
- Vai, brou! Dá logo o 3.8 pra ela, vai!
- 3.8??? Jesus Amado!!
- Tó, Dona Clotilde - Brou estica um pote oval de plástico, escrito 3.8
- O que que eu fiz de errado? Você tem casa, tem computador, freqüenta uma escola particular, seu pai é dono de uma empresa que você herdará... E você se mete numa dessas?

A mãe dá um suspiro e abre o pote. Dentro há várias bolinhas de borrachas coloridas. Imediatamente sua feição muda. E ela exclama horrorizada:

- Mas o que que é isso, meu Deus do céu?? Pelo-amor-de-Deu, isso não é munição, né?
- Pô, claro que é, né! Como é que alguém acerta o alvo sem munição, caralho?
- Ééé, certeza! O Véi derruba todas!
- Ai, tô passando mal! - A mãe senta-se no sofá.
- Pô, essas paradas de velhice são foda! Qué que eu pegue água?
- Quero que você me dê a arma! Eu pedi a arma e não a munição!
- Como assim, meu? Minha arma é minha munição, tá ligada?
- ÉÉéé, certeza, Véi! E essas são das boas, derrubam qualquer latinha!
- Latinha? É assim que vocês chamam as pessoas? Derrubam elas feito latinhas? Aiii... - A mãe coloca as mãos na cabeça para tentar controlar a vertigem.
- Caralho! Pô, mãe, vô chama uma ambulância, cê tá delirando demais! Que papo é esse? Tá me assustando, porra! - "Véi" começa a ficar nervoso, preocupado com o estado da mãe.
- Quantos vo...você...você já...matou?
- Pô, mãe! Cê tá aí mó grogue e continua com esse papo de querer saber do nosso jogo?
- QUANTOS??? - A mãe grita mais alto e o nervosismo toma conta dela.
- Ôô, Véi! Sua mãe tá nervosa, fala logo pra ela quantas rodadas cê já ganhou!
- Tá, tá. 28 rodadas - Responde "Véi"

A mãe sente-se sufocada. Véi continua:

- Hoje ia ser a 29ª, e se eu derrubasse mais latinhas que o Evaldão, eu iria tá um passo de ser coroado o rei, de certeza! Mas aí cê não deixou eu ir jogar com a galera. Vô tê que dexa proutro dia.

A mãe tenta se controlar e apenas ouve o que os dois falam.

- Éé, véi. Uma pena. Cê tava quase lá... Caralho! Lembrei! A gente nem foi catá mais latinha pelo bairro. Era a nossa vez essa semana, véi!
- Puta merda! É verdade! Mas acho que eu tenho umas por aqui, Brou. Meu pai deu um festão nesse findi e ele sempre separa umas latinhas pruma galerinha que vem pegar aí, tá ligado?
- Latinhas? - A mãe levanta a cabeça e olha pro filho. - Latinhas de refri?
- De refri, cerva, qualquer coisa.
- É por isso que você pega umas latinhas do lixo, de vez em quando?
- É!
- E essas latinhas são as mesma que você "derruba"?
- Qualé, mãe?
- "Latinhas" não são "pessoas"...
- Que pessoas, pô?
- Vocês dois brincam de derrubar latinhas com essas bolinhas de borrachas, na rua de trás?
- Não é brincadeira! É jogo duro pra caralho! Os manos da rua de trás também são bons pra cacete!
- Então você nunca matou ninguém?
- Pô, que papo é esse?
- Então, tudo não passa de um joguinho de derrubar latinhas...
- Pô, mãe! Joguinho, não! É jogão. Coisa séria!
- Éé, certeza, Véi! Jogão duro! Pô, a Dona Clotilde podia ir lá vê a gente mandando vê, né?
- Cê quer parar de me chamar de Dona Clotilde? Não é Clotilde, eu sou Florinda!
- Nãããão! Dona Florinda é a mãe do Quico. A senhora tá se confundindo, Dona Clotilde!
- Que Quico? Eu tô dizendo que é coisa do Dirceu me chamar de Dona Clotilde. O meu nome é Florinda!
- Ôô Véi! Tua mãe tem o nome da mãe do Quico!! Que iraaaado!

Nenhum comentário: